Foi num dias daqueles em que a luz dos postes se acende mais cedo, e o pessoal só consegue falar do frio que sente. Meio do ano e fim da semana. Você apareceu, sorriu para meia dúzia de amigas e sentou na mesa ao lado. Bebendo cerveja de garrafa e comendo amendoim, cabelo preso num rabo. E o vento soprando o gelo de uma noite fria. Depois de você ali, a cidade calou: bocas abrindo e fechando, garçons de gravata anotando pedidos, moleques pedindo moedas, carros gritando, ônibus relinchando, tudo sem emitir um pio sequer. No meio da guerra, eu podia escutar seus dentes quebrando os amendoins, goles descendo por sua garganta, cílios se roçando num piscar de olhos. Senti seus lábios tocando meus ouvidos. Sua chegada condenou toda aquela gente à morte instantânea.
Naquele momento, fiquei sabendo de tudo. Que iríamos nos conhecer em cerca da meia hora, quando eu levantasse para falar bonito, entre goles e olhares de espadachim. Sabia que nos amaríamos poucos dias depois, como dois desesperados, nos elevando como quem precisa. Fiquei sabendo, olhando pra você na outra mesa, que nossa persistência seria comparável à teimosia de ditadores, cães loucos e mães. Que nosso amor arrancado a golpes de foice seria perdido para ser encontrado depois, reencontrado depois, muitas vezes, quantas vezes fosse preciso.
Sabia que brigaríamos como nunca fizemos com ninguém antes e nos xingaríamos de nomes que você teria vergonha de contar até para si mesma. Mas depois faríamos as pazes, doentes de paixão, como nunca fizemos antes. Bêbados, dançando e rindo do que só nós dois poderíamos entender. Trocando a noite pelo dia, trancados aqui em casa, ouvindo música, vendo filmes, dormindo abraçados. Sabia que rapidamente ganharíamos intimidade. E sabia que você falaria, alguns meses depois, que eu era o melhor amante que você já teve. E você falaria que nunca mais iria querer outra pessoa. Que os meus lábios seriam os mais gostosos do planeta e que continuaria sendo por todas as vidas que você pudesse encarnar. E sabia que você, entre muxoxos, diria que gostaria de beijar minha boca todos os dias. Antes de você beber a cerveja do seu copo, eu já sabia como iria gostar de ouvir todas essas mentiras. E como iria te retribuir com verdades.
Também sabia que, mesmo assim, apesar e por causa disso, eu ficaria ciumento e obsessivo como um psicopata. Faria perguntas sobre seu passado, ex-amantes e namorados. Sobre quem te levou pra cama e quem te deixou lá. Descobri que ficaria com taquicardia e mãos tremulas ao imaginar você com outra pessoa, no futuro ou no passado.
Descobri que você iria despertar meu melhor e meu pior, em proporções igualmente febris. E também descobri que iríamos superar isso. E depois de um tempo, acharíamos um jeito de fazer tudo, nem seu, nem meu, mais nosso. Você me ensinaria, com seus modos abusados, a viver melhor. Você iria combater meu impulso suicida contra o nosso amor. Não sei se você chegou a descobrir isso ainda, mas não é que o amor simplesmente acabe. O amor é morto em dias frios como esse. Carrega em si a semente desse assassinato. Às vezes o crime é doloso. Mas o normal é que seja morto corriqueiramente, como um tropeço. Com você seria diferente. Descobri, só de olhar o jeito de o cabelo cair na sua testa, que você lutaria até o fim para que eu não esquartejasse nosso amor. Você conseguiria.
Sabendo disso tudo, foi como se não tivesse escolha. Deixei uns trocados na mesa, levantei e lancei um ultimo olhar em sua direção, já quase virando a esquina. Depois disso, cheguei a te procurar em alguns bares e saideiras. Em alguns meses, acabei esquecendo seus olhos castanhos e, com eles, tudo que descobri, em não mais que sete segundinhos, num dia daqueles em que a luz dos postes se acende mais cedo. O amor é morto em dias frios e escuros como esse.

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