7 segundos

Posted Agosto 28, 2007 by brunoamui
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Foi num dias daqueles em que a luz dos postes se acende mais cedo, e o pessoal só consegue falar do frio que sente. Meio do ano e fim da semana. Você apareceu, sorriu para meia dúzia de amigas e sentou na mesa ao lado. Bebendo cerveja de garrafa e comendo amendoim, cabelo preso num rabo. E o vento soprando o gelo de uma noite fria. Depois de você ali, a cidade calou: bocas abrindo e fechando, garçons de gravata anotando pedidos, moleques pedindo moedas, carros gritando, ônibus relinchando, tudo sem emitir um pio sequer. No meio da guerra, eu podia escutar seus dentes quebrando os amendoins, goles descendo por sua garganta, cílios se roçando num piscar de olhos. Senti seus lábios tocando meus ouvidos. Sua chegada condenou toda aquela gente à morte instantânea.

Naquele momento, fiquei sabendo de tudo. Que iríamos nos conhecer em cerca da meia hora, quando eu levantasse para falar bonito, entre goles e olhares de espadachim. Sabia que nos amaríamos poucos dias depois, como dois desesperados, nos elevando como quem precisa. Fiquei sabendo, olhando pra você na outra mesa, que nossa persistência seria comparável à teimosia de ditadores, cães loucos e mães. Que nosso amor arrancado a golpes de foice seria perdido para ser encontrado depois, reencontrado depois, muitas vezes, quantas vezes fosse preciso.

Sabia que brigaríamos como nunca fizemos com ninguém antes e nos xingaríamos de nomes que você teria vergonha de contar até para si mesma. Mas depois faríamos as pazes, doentes de paixão, como nunca fizemos antes. Bêbados, dançando e rindo do que só nós dois poderíamos entender. Trocando a noite pelo dia, trancados aqui em casa, ouvindo música, vendo filmes, dormindo abraçados. Sabia que rapidamente ganharíamos intimidade. E sabia que você falaria, alguns meses depois, que eu era o melhor amante que você já teve. E você falaria que nunca mais iria querer outra pessoa. Que os meus lábios seriam os mais gostosos do planeta e que continuaria sendo por todas as vidas que você pudesse encarnar. E sabia que você, entre muxoxos, diria que gostaria de beijar minha boca todos os dias. Antes de você beber a cerveja do seu copo, eu já sabia como iria gostar de ouvir todas essas mentiras. E como iria te retribuir com verdades.

Também sabia que, mesmo assim, apesar e por causa disso, eu ficaria ciumento e obsessivo como um psicopata. Faria perguntas sobre seu passado, ex-amantes e namorados. Sobre quem te levou pra cama e quem te deixou lá. Descobri que ficaria com taquicardia e mãos tremulas ao imaginar você com outra pessoa, no futuro ou no passado.

Descobri que você iria despertar meu melhor e meu pior, em proporções igualmente febris. E também descobri que iríamos superar isso. E depois de um tempo, acharíamos um jeito de fazer tudo, nem seu, nem meu, mais nosso. Você me ensinaria, com seus modos abusados, a viver melhor. Você iria combater meu impulso suicida contra o nosso amor. Não sei se você chegou a descobrir isso ainda, mas não é que o amor simplesmente acabe. O amor é morto em dias frios como esse. Carrega em si a semente desse assassinato. Às vezes o crime é doloso. Mas o normal é que seja morto corriqueiramente, como um tropeço. Com você seria diferente. Descobri, só de olhar o jeito de o cabelo cair na sua testa, que você lutaria até o fim para que eu não esquartejasse nosso amor. Você conseguiria.

Sabendo disso tudo, foi como se não tivesse escolha. Deixei uns trocados na mesa, levantei e lancei um ultimo olhar em sua direção, já quase virando a esquina. Depois disso, cheguei a te procurar em alguns bares e saideiras. Em alguns meses, acabei esquecendo seus olhos castanhos e, com eles, tudo que descobri, em não mais que sete segundinhos, num dia daqueles em que a luz dos postes se acende mais cedo. O amor é morto em dias frios e escuros como esse.

E o Pan acabou. Brasil-il-il-il!!

Posted Julho 31, 2007 by thadeubsb
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O funcionário mais antigo da televisão brasileira é um provecto senhor, de nome Demóstenes, que, há décadas, tem como trabalho apertar um único botão. O dispositivo fica numa solitária sem janelas que tem apenas uma cadeira e um aparelho de TV.E claro, o botão amarelo numa mesa de acrílico. Demóstenes, que trabalha das 7 da manha às 2 da madrugada, é responsável por assistir a programação de esportes de todos os canais e, conforme o calor dos acontecimentos, acionar o mítico botão, o que faz desde os áureos tempos da TV brasileira (?). Dependendo da histeria dos locutores e da pontuação elástica de esportes de alegria fácil como handebol, vôlei e pingue-pongue, Têninho, como é chamado pelos colegas, não tira o dedo do botão amarelo. Mas seus amigos, assim como sua família, não sabem nada dessa história de apertar botão, e muito menos porque diabos Demóstenes fica trancado dia e noite numa isolada sala subterrânea. Não sabiam.Encerro aqui o mistério, guardado a setenta e sete chaves pelos corredores refrigerados das TVs: o botão apertado diariamente por Demóstenes é o que aciona a vinheta “Brasil-il-il-il” durante as transmissões esportivas.Durante o Pan, o esforçado Demóstenes acionou 13.425 vezes o “Brasil-il-il-il”. Quando o Brasil era prata ou bronze (‘que valem ouro’) era dedo no “Brasil-il-il-il”. E também muito dedo no “Brasil-il-il-il” quando as meninas e meninos do Brasil se classificavam pra esportes ignorados até então – e que voltarão a ser, pelo menos até o próximo Pan no país, Barretos 2055.Demóstenes me encontrou numa padaria perto de uma das emissoras, sob a radiação das suas antenas parabólicas (ou paranóicas, como dizia quando era criança), e confessou tomando café:   - Nesse Pan, fui pressionado a apertar o botão toda hora, virou um troço insuportável, meu amigo! Nunca foi assim antes, nem na Copa de 70, ou quando o Ayrton Senna ainda estava vivo… O pior é que sempre tenho que dar moral pras piores macacadas!  Perguntado por quer continuava com o degradante emprego aos oitenta e nove anos de idade, Demóstenes disse ter planos subversivos, que revelarei sem medo:  - O Pan acabou, mas vou continuar metendo o dedo no botão o dia todo. Vai ser uma festa meu filho: dedo no “Brasil-il-il-il” no programa infantil de manhã,  “Brasil-il-il-il” no meio do noticiário, “Brasil-il-il-il” quando o pessoal da novela falar besteira… Ó, eu vou soltar o “Brasil-il-il-il” sem parar! Porque Brasil não é só esporte. E digo mais: atleta, tirando um ou outro jogador de futebol, não é artista não.  Depois de tão enigmáticas palavras, joguei cinco moedas no balcão, despedi-me da alma revoltada do pobre Demóstenes com um tapinha nas costas e segui pela rua, fazendo salto sobre barreiras, já com sofridas saudades do Pan verde-amarelo e de inspirados versos como “aaa-eeeu-sou-brasileirocommuito-orgulho-com-muito-amooor”.Foi quando, mais que subitamente, entendi a utilidade do botão amarelo. E não só isso, mas também mistérios nacionais como a crise nervosa do Ronaldinho na Copa de 98, o papel do Cumpadre Washiton no É o Tchan!, a xenofobia desdentada da torcida brasileira, a existência do Ministro da Defesa e do astronauta canarinho Marcos Pontes, entre tantos outro enigmas nunca desvendados. A algumas quadras, meu novo amigo Demóstenes tomava a saideira rápida (havia a reprise de uma partida eletrizante de softball programada para as dez) e, sem saber, resumia meus pensamentos à moça do caixa:  - É que o brasileiro, no fundo do pote, é o maior patriota do mundo, sabe? Mas o brasileiro é um patriota engraçado!

Puta socióloga

Posted Julho 26, 2007 by thadeubsb
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- Oi, gato. Tá sozinho?- Não, tô esperando uma pessoa…

- Talvez essa pessoa não venha… Tô te olhando aí há horas, bebendo seu conhaque. Vem sempre aqui?- Não, primeira vez hoje.

- Puxa, eu também, sabe? Sou nova aqui. Fico até um pouco insegura com este trabalho. Não sei se dou pra coisa. Mas tenho de ajudar meus pais no interior… Eles são velhinhos… Preciso do dinheiro. Não quer me pagar um conhaque desses?

- Não.- Você não é muito cavalheiro, é?

- Te disse que estou esperando alguém…

- Por quê? Por que vem num lugar destes esperar alguém? Combine no shopping!

- No shopping não rola…

- Tô sacando qual é a sua. Você é um desses que vem aqui só atrás de pó, né? Fica aí enchendo a cara, dando uns tecos e depois vai embora porque seu pau não funciona mais. Tô te entendendo. Você acha muito louco vir aqui pro Conic, entrar nos puteiros e dar uma de marginal. Tem uma câmera digital aí? Não vai tirar foto pro seu fotolog? Daí todos seus amiguinhos vão ver você sentado com uma puta e vão achar que você é foda, fodão, fodíssimo! Mas comer mina mesmo, você não come. Vem aqui só pra dizer que veio. Depois fica querendo organizar festinhas aqui na zona. Conversa com o Joel e combina de fechar a casa aqui pra fazer uma festa elektro. Pode até organizar umas performances. Você faz performance? Sei lá, de repente você dubla a Tati Quebra-barraco ou faz auto-mutilação. Ui! Tudo pra mostrar pros seus amigos como você é transgressor. Mas comer mina mesmo, você não come. Você torce para que alguém te veja aqui comigo. Conheço bem seu tipo, vejo todos os dias…

- Pensei que era sua primeira noite aqui…

- Querido, é isso o que eu digo para os clientes que vem aqui foder de verdade, que querem uma mulher nova, gostosa, para realizar suas fantasias. É isso o que eu faço, realizo fantasias. Esse é meu trabalho, entende? Tô aqui trabalhando, enquanto vocês tão aí, curtindo com a minha cara, me tomando como decoração das suas baladinhas exóticas. Em vez de me foder, você tá fodendo com meu trabalho, pensa que não? Pense no seu pai, querido, cansado de foder sua mãe caidaça. Ele viria aqui e eu daria tudo o que ele precisa. Mas não. Ele tem medo de vir pra cá e encontrar o filhinho tatuado com seus amiguinhos. Hoje em dia ele tem medo de vir e sair na revista Caras! Ele tem medo de ser visto num puteiro porque agora vão pensar que ele é viado!

- Quanta bobagem…

- Bobagem pra você, que não tem contas pra pagar. Seu pai vai trabalhar todo dia, volta pra casa mansinho, com dinheiro no bolso, pra pagar suas tatuagens, e tem de se consolar com sua mãe cheirando a alho. Bobagem pra você, que vem aqui para cheirar conhaque e beber cocaí.. digo, beber conhaque e cheirar cocaína, e ferra teu corpo e não tem mais tesão nenhum e não dá mais no couro, nem tem vontade de dar. Só quer mesmo é afundar no padê, fala a verdade? Eu também dei uns tiros hoje, pra agüentar tudo isso, pra agüentar povinho que nem você, que vem de carro importado. Enquanto que eu tenho de pegar três ônib… Tudo bem, não tenho de pegar ônibus nenhum, moro aqui do lado. Mas tem várias meninas aí que pegam ônibus, trem, metrô, de salto-alto, maquiagem, pra ganhar o dinheirinho delas e vêm aqui e encontram essa palhaçada, essas bichas bebendo conhaque. Daí olham os bracinhos deles tatuados, torneados – você faz academia, fala a verdade? Todo dia? – e elas acham que o trabalho vai ser fácil, ou gostoso, prazeroso, mas que nada! Eu já conheço esses tipos de longe! Tipos como você não dão em nada, só ferram a minha vida. Pensa o quê? Não tenho família para sustentar, mas pago contas, faço faculdade de sociologia!

- Bacana…

- E você, fez publicidade, né? Fala a verdade. Ou é artista plástico? Deixa eu ver o piercing na língua, não tem? Eu tenho um, sabe? É bom pro sexo oral. Eu FAÇO sexo. Faço bem pra caralho. Invisto nisso. Coloquei piercing pra isso. E você, que fez essas tatuagens, malha os bracinhos, tudo pra tirar a camiseta na pista? Pra ficar provocando as meninas e frustrando as putas? Pra sair bem na foto e ter vários viadinhos atrás de você, só pra você se sentir mais gostoso, menos inseguro por não foder ninguém? Tô achando que você é um nerd. Fala a verdade, você é escritor de blogs?

- Não, querida, sou seu colega.

- … colega?

- Agora, por favor, pode mudar de mesa que está afastando meus clientes?

Tempo

Posted Julho 2, 2007 by brunoamui
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Encontraram-se numa quarta-feira. Dia esquisito. Mas não conseguiram outro. Gastaram muitas linhas de Msn até chegarem aquele bar.

- A vida já foi mais simples, não? Você não tem essa sensação?

- Sou do tempo em que a gente tinha tempo.

- É verdade.

- Meu dia não cabe em 24h!

- Sabe o que eu faço? Quando vou dormir, levo tudo o que posso pra cama. Sempre acho que dá pra fazer mais alguma coisinha…

- Você não imagina o tamanho da pilha de livros que estou criando no meu quarto. Na mesa de cabeceira não cabe mais nada.

- E o jornal? Quem consegue ler um jornal inteiro, todo santo dia? Não dá. Comecei a guardar. O problema é que no dia seguinte tem outro.

- Minha mãe diz que vou ser soterrado por livros no meio da noite.

- Sabe quando vou ler aqueles jornais todos? Nunca!

- Preciso reencarnar umas duas vezes pra ter tempo de ler todos os meus livros e assistir a todos os filmes que tenho comprado.

- Eu tinha um iPod que ficou lotado. Tive que comprar um maior. Pra quê?! Sabe quando vou ouvir aquelas músicas todas? Nunca!

- É verdade!

Tomaram o último copo de cerveja em silêncio, enquanto olhavam o mundo lá fora. O sol brilhava e aquecia os carros estacionados na calçada e os pombos voavam de um lado para o outro, como faziam absolutamente todos os dias. A vida seguia seu curso. Tudo parecia igual. Mas não para eles.

- O tempo está passando.

- Nem me fale.

Pediram a conta, mas acharam melhor deixar a saideira para outro dia. Ficaram de se falar pelo Msn. Tudo acabou com um abraço meio desajeitado. Saiu um para cada lado, com saudade do tempo que tinham tempo.

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Título

Posted Julho 2, 2007 by brunoamui
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Chegou em casa, cansado. A estafa corria por suas veias, fluía por seus poros e lhe dava expressões que nem mesmo ele sabia que era capaz de fazer. Apesar de tudo estava feliz. A causa de tanto cansaço era nobre. Batalhara muito para poder chegar em casa no primeiro dia de férias, tão cansado. Talvez para não ter de se preocupar com nada a não ser si mesmo durante as férias. Talvez para que a sensação de paz fosse maior, quase como aquele prazer de tirar os sapatos após usá-los por um dia todo, um prazer diretamente proporcional ao tempo que você ficou calçado.

Por algum motivo essas férias precisavam ser muito boas. Ele as estava esperando havia meses, e as programações, mesmo que não fossem formais, rodeavam sua cabeça o tempo todo nos últimos dias. Sentado na frente de seu computador tudo parecia meio nublado: seus pensamentos, o que ocorrera nos últimos dias e o que ele queria q ocorresse nos próximos. De repente uma idéia passou pela sua cabeça. Algo tão nojento que seu almoço veio à boca naquele instante. Era como se ele não quisesse entrar de férias! Não me entendam mal, ele não queria continuar a sofrer aquela tortura diária. Mas aquele pequeno mês de férias trazia uma mudança tão grande na rotina dele. Ele veria mais raramente as pessoas por quem ele tinha carinho. Isso iria fazer falta. Alem disso, a falta de contato mudaria alguns relacionamentos. E a mudanças o deixavam apavorado.

Agarrou-se no canto da mesa, controlando o quase-desmaio causado pela ultima idéia. Já recomposto, sentou novamente e encarou seu computador. Não queria pensar aquela besteira. Fazia tempo que ele não escrevia, isso estava fazendo falta para ele. De formas que jamais imaginara. Abriu o word e começou a digitar um texto, sem titulo mesmo. Começava mais ou menos assim:

“Chegou em casa, cansado. A estafa corria por suas veias, fluía por seus poros e lhe dava expressões que nem mesmo ele sabia que era capaz de fazer. Apesar de tudo estava feliz.”

bar ruim é lindo, bicho

Posted Junho 24, 2007 by thadeubsb
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Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de 150 anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de 150 anos, mas tudo bem). No bar ruim que ando freqüentando nas últimas semanas o proletariado é o Betão, garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas acreditando resolver aí 500 anos de história. Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura. “Ô Betão, traz mais uma pra gente”, eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte do Brasil.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte do Brasil, por isso vamos a bares ruins,que tem mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gateau e não tem frango à passarinho ou carne de sol com macaxeira que são os pratos tradicionais de nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gateau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda. A gente gosta do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne de sol, a gente bate uma punheta ali mesmo.

Quando um de nós, meio intelectuais, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectual, meio de esquerda freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim. Porque a gente acha que o bar ruim é autêntico e o bar bom não é, como eu já disse. O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias
mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e universitários e nesse ponto a gente já se sente incomodado e quando chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual, nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e universitários, a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevete e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.

Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantém o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam em 50% o preço de tudo. Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato. Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se fodem, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse
algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão brasileira, tão raiz.

Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda, no Brasil! Ainda mais poque a cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que a gente gosta, os pobres estão todos de chinelo Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gateau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda, como eu que, por questões ideológicas, preferem frango a passarinho e carne de sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca mas é como se diz lá no nordeste e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o nordeste é muito mais autêntico que o sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é mais assim Câmara Cascudo, saca?).

– Ô Betão, vê um cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?

                                                                                                                                         A.P

Garotos Podres

Posted Junho 5, 2007 by brunoamui
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Há meia hora ele esperava por ela, há várias semanas esperava por aquilo, há duas quadras, ele esperava. Agora ela poderia aparecer em qualquer segundo seguinte, estava atrasada, e poderia nunca chegar. Faltava pouco para ele estar mais próximo, ou se passara meia hora de sua grande chance. Ela estaria mais próxima de seus braços ou distante o suficiente para sempre. “Se ela disse que vinha, é porque está a fim”, ele esperava.
O vento soprava frio, ele tentava ficar parado, apesar da impaciência. O vento despenteava seus cabelos e ele tentava mostrar perfeição, apesar de ser meio torto, apesar de meio sem jeito, um jovem bonito, mas sem exageros. Nenhum presente de Deus, nenhuma curva prodigiosa de genes ou cromossomos.
Escolhera uma das quaisquer camisetas, junto a um jeans qualquer, não demonstrando grande preocupação, apesar da expectativa. Chateado, observava a leve mancha verde na camiseta, que subia sem medo sobre seu peito. “Sob a luz do meu quarto, as roupas sempre parecem mais limpas.” Tentou esfregar, dedo molhado em cuspe, e percebeu que a mancha se espalhava pelo polegar, pelo indicador, contornando seu pulso. Era mofo, ele mofava. Agora era inútil permanecer parado, o mofo dominaria. Melhor juntar-se ao vento, melhor subir a rua, melhor ventilar pelo comércio, talvez ela nem aparecesse.
Agora ele esperava que não, não queria ser visto assim. Já passara meia hora, melhor sair dali.
“Oi, desculpe, me atrasei demais? Você já estava indo embora? Desculpe mesmo.”
O jovem corou e a vergonha vermelha escondeu a mancha verde que subia pelo queixo. “Tudo bem, não tem problema.” E a moça morena, tranqüila, bela, próxima aos braços fez os trinta desculpáveis minutos depois se virarem como uma ampulheta. Deram as mãos e foram ao cinema.
No escuro, não teria como ela perceber nada de errado. Luzes se apagaram, carretéis giravam na sala de projeção e o jovem não conseguia se manter parado. Ia de um lado para o outro, medo de que o mofo se acumulasse. Levantava da poltrona, ia ao banheiro, voltava à poltrona, à bomboniere. Nada era tão doce, como o que ele perdera, como o que as pragas consumiram, apodrecera.
Abriu a calça. Frente ao mictório, notou que o líquido escuro, espesso e quente que mijava era lama. Densa. Lavando-se em frente ao espelho, notou micose entre os dedos, atrás das orelhas. Sua mãe bem dizia. Mastigando balas refrescantes, sentiu o rastejar lento e persistente de pequenos vermes em sua boca. Era certo e generalizado, ele apodrecia.
A moça se irritou com a inquietação de seu jovem, que parecia nervosismo, que parecia timidez, que parecia com tudo o que os jovens devem lutar contra, juntos, de mãos dadas. Agarrou sua mão e levou-a ao colo. Ele teve de se manter parado, “seja o que Deus quiser”, e o mofo avançava em direção à amada, os pêlos cresciam em direção à amada, seus órgãos pulsavam em direção à amada.
Tanto asseio, tanto cuidado, tantos meses de espera para nada. Ele nunca conseguiria esconder sua podridão, não poderia se mostrar um jovem decente. Achou que poderia conquistar sua Julieta, mas antes disso, se envenenaria.
E suspirou decepcionado, entregando-se ao mofo e aos vermes que tanto o desejavam. “Amor só é limpo em ensaio fotográfico. Com esses carretéis girando, não podemos evitar o suor, a secreção.” E talvez seu suspiro fosse quente, talvez fosse uma declaração, talvez expressão de um interior pressionado, ansiando pela liberdade. E talvez ela achasse que a liberdade fosse um beijo, talvez ela achasse que liberdade fosse amor, talvez ela achasse ele muito meigo, suspirando ao seu lado no escurinho do cinema. E se aproximou.
Lábios em seus ouvidos, passeando entre teias de aranha, lábios no pescoço, lábios nos lábios. Com seus lábios colados, era inevitável que não percebesse. O contato havia sido feito, com ele e toda sua podridão. Os vermes, o mofo, a micose que crescia sobre ele seriam identificados pelas papilas gustativas da moça, como um gosto amargo, azedo e salgado.
Com lábios colados, o jovem sentia o movimento lento dos vermes, de sua boca para a boca dela, lentos e lânguidos como suas línguas, repartindo vidas, unindo organismos. Alguns vermes iam, outros voltavam, sem pressa ou compromisso, sem limites ou direção. E com os lábios se afastando, com a saliva escorrendo, com os olhos sorrindo a moça perguntou: “Esses vermes são meus ou seus?”

Carta aberta a um amigo

Posted Maio 17, 2007 by brunoamui
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Caro Chico, li o e-mail que você me mandou mas não tive tempo de respondê-lo antes. Fico feliz em saber que tudo vai bem por aí: os estudos, o trabalho e a mulher. Manda beijo pra Marieta. Tenho saudades de vocês, temo que fiquem por aí de vez. Há dias em que acho que seria bom negócio. Lembro que você estava assustado com a leitura dos jornais brasileiros pela internet e me perguntou se o bicho estava pegando mesmo por aqui.

Está, não está. Tudo continua dando um jeito diferente de continuar igual. Os senhores barrigudos  continuam tomando chope no boteco da esquina, as meninas com roupa de lycra continuam rebolando pelas academias e clínicas, os sujeitos continuam cada vez mais fortes e altos – se continuar assim, nossos netos terão dois metros de altura e 130 quilos. O meu Fogão continua arrasador, numa eterna rotina de vitórias. Flamengo levou o título do estadual num jogo roubado (como sempre) e a seleção do Dunga continua com o jogo embaçado.

A maioria dos brasileiros continua reclamando da vida, sem bom emprego e grana no bolso. A TV continua cada vez pior e cada vez mais batendo recordes de audiência, 80% de share, retorno total de mídia. A música que toca na rádio continua cada vez mais conchavos e jabá. A polícia continua metendo bala, os traficantes também. Lulas, ACMs e Clodovis continuam agindo como patetas do inferno. E o povo na mesmíssima: fudido no meio do tiroteio. A coisa aqui, meu caro, tá pretíssima.

Hoje em dia a moda é imitar o que já passou. No século passado, os jovens lançavam tendência. Hoje em dia a tendência é a banda cover de música ruim. Barrigudinhos de 30 anos que não viveram adolescência se olham no espelho retrovisor, ajeitam a camisa para dentro da calça, tentam recuperar tempo perdido. Adolescentes difusos pegam nostalgia emprestada – zumbis de olhar ermo, mendigando sentido. Tocando o gado, os organizadores ganham boa grana com a indigência existencial dos outros. E quer saber? Estão certíssimos. Há de se ganhar o qualquer um e a vida.

Sabe aquela música do Bob Dylan, “People are crazy and times are strange”? Não chego a ficar raivoso como antes. Você deve se lembrar como eu era,  Chico. Hoje só consigo sentir vazio e pena. Uma enorme pena de todos nós. Dos coroas filtrando o chope dentro de suas enormes barrigas, das moças e marombados feitos de plástico, dos chatos das mesas redondas, das mini-celebridades da internet compartilhando solidão em diários insossos, da galera se esgoelando ao som da novidade de 20 anos atrás, e dos jovens e velhos escritores, compulsivos, mascando palavras e mascarando vaidades. Pena dos três poderes: policiais, traficantes e políticos. Pena do povo achando que não tem culpa, que não é com eles – digo, conosco.

De vez em quando, passa um filme no cinema ou ouço um disco bom. De vez em quando, gosto de sair com os amigos pra beber e às vezes dá para ir a um lugar que não esteja cheio de babacas.

Você contou que viu um cara muito parecido comigo no metrô. Pois talvez tenha sido eu. Se o encontrar de novo, diga que preciso de uma horinha comigo mesmo. Sabe quando o céu escurece, as nuvens pesam sobre as nossas cabeças, o ar e a luz do sol ficam de um jeito estranho e o pessoal fala “vai chover pra burro”? Ando assim: quase chovendo pra burro.

Novidade mesmo acho que só o Pan do Rio, que aliás, está sendo um pé no saco. E olha que nem começou ainda. Desculpa tanta chatice, meu amigo. Acho que preciso de um tempo ‘off’. Acho que estou ficando velho cedo demais. Mas talvez as coisas por aqui estejam realmente pretas. Essa vida é boa de mais e a gente acaba se acostumando. Na verdade, se acostuma com tudo, não é? Boa sorte por aí. Manda notícias

 

Argh…

Posted Maio 13, 2007 by brunoamui
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Como quem já me conhece sabe, eu, apesar de transparecer uma certa calma, fico puto (enraivecido, chateado etc.) com muitas coisas na minha vida. Coisas, infelizmente, externas a mim e que dificilmente poderei alterar na minha curta e nada proveitosa estadia neste plano. Chateio-me e fico calado. Presto atenção nas leis da vida para, lentamente, depois de um tempo, tentar me adaptar a este mundo em que cismo em viver. E não tem sido fácil. Mas nunca é fácil, para ninguém. E reclamar de muitas coisas ainda é um clichê ao qual eu não quero retornar.

O motivo principal deste texto — e foi um bom motivo, acreditem – foi perceber a importância que a visita do “papa” recebeu, especialmente na televisão. Eu realmente espero que a globo esteja dando um maior enfoque a este “acontecimento” que o resto dos cristãos do Brasil. Inicialmente é importante ressaltar que eu (e é bom entender que é uma opinião bem própria, não tentem encontrar em mim a personificação do anticristo) não entendo esse amor todo desenvolvido pelo “papa”. Um ícone escolhido em um conselho de seres inalcançáveis utilizando critérios que poucos conhecem (se você, leitor, souber que critérios são esses, não precisa me falar, o importante é que a maioria dos cristãos não sabe). Na verdade a maioria dos seus seguidores mal conhece a importância episcopal de ratzinger. O que, incrivelmente, não impede que este seja adorado, venerado, seguido, e ainda traga multidões de brasileiros à porta do hotel que está hospedado.

Lembrar do passado de Bento XVI seria bem lugar comum, não é novidade para ninguém a sua participação na juventude nazista (o que, na Alemanha de sua mocidade, não era nem um pouco condenável). As pessoas sabem disso, e mesmo assim o adoram. Agora vejam, nosso presidente é chamado de “analfabeto”, o que (mesmo que fosse verdade), convenhamos, é um pouco menos condenável. E o “coitado” é esmagado pela sociedade “culta” no alto de sua superioridade “pequeno-burguesa”. No mínimo controverso esse Brasil. Concordemos.

Por fim, eu ainda acho nosso papa um pouco menos carismático que nosso querido (e gagá) João Paulo II. E, me aproveitando da mina indefinição religiosa, proponho uma análise mais profunda, algo que passe pela semelhança gritante entre Ratzinger e o Mestre dos Magos (ou algum lord sith) e busque relação entre isso e a grande aceitação do meu objeto de estudo.

Lugar Barulhento.

Posted Maio 9, 2007 by brunoamui
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- Eu queria falar uma coisa importante.
- O quê?
- É que eu gosto de você.
- O quê?!?
- É isso, eu estou gostando de você.
- O quê?!?!?
- Nada. Esse lugar tá muito barulhento.